Kimera

Name: Kimera
Location: Portugal

Tuesday, June 06, 2006

Uma flor branca adorna-lhe os cabelos negros e ele limpa-lhe delicadamente os pés, retirando cada grão, cúmplices daquele dia bem passado na praia. Um casal simpático cruza-se com eles: ela segura o mesmo adereço entre os cabelos grisalhos e os dois caminham sorridentes com o “clap-clap” dos chinelos a chamar a atenção para os pés sem areia.

No dia seguinte encontraram-se longe dali e enquanto travavam conhecimento comiam bolachas com geleia de morango.

Wednesday, January 25, 2006

Parque

Os seus olhos raiados de vermelho mas brilhantes de satisfação embateram de surpresa numa tela tranquila.

Naquele momento soube que todos os dias iria sorrir inadvertidamente ao relembrar aquela manhã.

De uma forma harmoniosamente assimétrica nascia um lago.
Pertinho dele, num recanto acolhedor rodeado de árvores distintas que o protegiam da aragem fria, e aquecido pelo sol distante de inverno, sentou-se na erva ainda húmida.

Em breve estava acompanhada; ele cedeu o seu colo e libertou-lhe os cabelos; com as mãos trémulas tocou-lhe uma vez mais; ganhou confiança e prolongou aquele contacto, espalhando e devolvendo ao sol os raios de luz que incidiam nos longos fios escuros.

Ela não quer conhecer o caminho, quer percorre-lo da mesma forma.


Tinhas razão: tal beleza não pode permanecer desconhecida.

Friday, November 25, 2005

O esconderijo

Tinha aquele tesouro guardado desde que este surgira inesperadamente à sua frente.

O local estava pleno de outras cabecinhas-meio-embriagadas mas felizmente nenhuma o havia detectado. Arrastou-o penosamente para casa onde, com demasiada atenção e fascínio, examinou cuidadosamente cada moeda. De todas elas fez uma história: aliou-as a lembranças e viajou por lugares conhecidos, modificando as vivências de acordo com a sua nova situação (financeira).
Dias depois já tinha atribuído a cada uma o significado que mais lhe convinha. Trancou-as numa maleta e escondeu-as no armário, debaixo da reserva de cobertores.
Todos os dias as contemplava durante várias horas recordando cada fantasia.

Uma noite acordou com frio. Não querendo desfazer o fantástico esconderijo passou a noite em claro.
Quando finalmente amanheceu saltou da cama e as denunciadoras olheiras fizeram-na perder o amor ao tesouro.Saiu de casa decidida a resolver aquela insónia.


ps- Continua... (agora tenho que ir dormir!)

Wednesday, November 23, 2005

Coisas que (não) se podem evitar

Sente o cabelo desalinhado mas tem as mãos sujas. Um par de luvas padece imaculado entre o azulejo branco e o tubo de gás do esquentador. Dirige-se ao lava-loiças apinhado de uma mistura heterogénea de restos de vegetais. Sabe que já os provou mas nunca tinha atentado, ao pormenor, nas suas cores e texturas quando se encontam naquele estado de animada amálgama. Passa as mão por água e, sem pensar, empunha o pano manchado estrategicamente pendente do seu... AVENTAL? Esquece a necessidade básica de se embelezar, sente uma vertigem mas consegue manter os olhos fechados. Apercebe-se agora que a cozinha sempre alinhada parece um campo de batalha: alguém andou a jogar mikado com lápis-de-todas-as-cores-e-mais-algumas no chão; um amontoado de papelinhos, fotos e bonequinhos horrendos pairam magicamente no lugar do frigorífico; a mesa já serviu o pequeno almoço a quatro pessoas e ao lado da manteiga um relógio masculino mente ("não são dez e meia da madrugada, muito menos ao domingo!")... Do outro lado de uma porta escancarada um barulho desconhecido e inquietante chama a sua atenção. Evitando aqueles objectos desaguçados muda de divisão... Sem preparação prévia o seu reflexo num vidro de um armário de loiça fulmina-lhe a retina. Ao contrário do que seria de esperar, a dor lancinante fá-la abrir os olhos. Momentaneamente ainda se depara com o seu reflexo mas a voz doce da sua mãe evita um grito estridente.
Estica de imediato um braço e a sua cama confortavelmente vazia devolve-lhe a lucidez.

Tuesday, November 22, 2005

Sem fundo


Apenas um leve aceno de reconhecimento e ela estremece... "Que agradável surpresa..."
Não consegue decidir-se quanto à origem daquele calor que lhe aflora à tez macia da face. "Diferença de temperatura". Não consente em deixar-se cair de novo naquele abismo mas já está pendurada e baloiça perigosamente...
"Olá!" Debate-se com a insistente vontade de se deixar escorregar.
Na escuridão encontra um fascínio irracional. Ela reconhece-o.
Ocasionalmente algo brilha, tentando-a a uma queda aparatosa.

Marioneta

Acorda tarde.
Tem alguma dificuldade em vestir as calças do fato-de-treino e lembra-se então de despir o pijama.
Estranhamente confortável põe um pé fora de casa. Setim preto e lantejolas ornamentam-lhe o dorso dos pés. Agora repara, lá fora chove. Hoje não corre.
Volta para dentro deixando a porta aberta atrás de si.

Monday, November 21, 2005

Presença


Um pequeno fragmento espelhado é o suficiente para criar embaraço.

De repente ela apercebe-se da sua presença incómoda que satisfaz minimamente o desejo de um contacto pleno.
Espera ver reflectido o mesmo brilho que tenta esconder... Desvia a sua mente fantasiadora e cai no fragmento-à-direita... - Ridícula! Debate-se para admitir o que este lhe grita mas não resiste à tentação de divagar numa conversa espelhada e, tendo realmente encontrado o que procurava, dedica-se agora a descodificar... "também-te-acho-uma-certa-piada; estou-igualmente-a-descortinar-esse-cintilar; esperava-ver..."
Acorda! É um monólogo!
Ela ignora o seu próprio reflexo... "-te-por-aqui-hoje..."
Os seus olhos perscrutaram-na? "Sim!!"
Agora ela já recorre à fracção à direita... "faz-me despertar!" ... não tem resposta.
"Olha-me sim mas com as pupilas comprimidas perante a reflexão que as bombardeia."